Cápsulas de colágeno, enzimas ingeridas e comprimidos de insulina: mitos e verdades sobre as proteínas.

Muitas empresas que trabalham com produtos de beleza, muitos sites de “dicas femininas”, recomendam o uso – e obviamente, a compra – de cápsulas de colágeno para mulheres, principalmente na faixa dos 30 anos em diante. Esta recomendação costuma se basear no argumento de que o colágeno é uma proteína de sustentação do corpo, e que tem sua produção pelo organismo diminuída a partir dos 30 anos, o que costuma resultar em rugas, pele flácida e sem elasticidade. E isso é verdade! Porém, a parte mais importante da ideia que fundamenta o comercio destas cápsulas é completamente errônea: a ideia de que a ingestão de cápsulas de colágeno irá repor o déficit de colágeno no organismo.

Vejamos por quê.

O colágeno é uma proteína, formada por cadeias de três tipos de aminoácidos: a glicina, prolina e lisina. Esta proteína têm função de sustentação (como já disse anteriormente), e está presente nos tendões, na cartilagem, nos olhos, nas artérias, enfim, em todas as estruturas que precisam de sustentação mas necessitam também de elasticidade. E isso inclui também a nossa pele, alvo do comércio que se sustenta pela vaidade – sem críticas duras ao ramo, já que toda oferta precisa de demanda, e demanda neste ramo é o que não falta, todos querem se sentir bonitos e bonitas; a questão é quando a indústria da beleza oferece um milagre que não acontece. Como toda proteína, o colágeno é sustentado por ligações intramoleculares (ligações químicas, entre átomos, por covalência), forças intermoléculares (atrações do tipo pontes de hidrogênio) e forças eletrostáticas (atrações e repulsões de carga). Em temperatura e pH apropriados, as proteínas têm estrutura e formato bem definidos. A maioria das proteínas tem formato chamado de alfa-hélice, assim:

Mas quando são expostas a temperaturas mais altas ou mais baixas do que aquela faixa de temperatura apropriada para aquela proteína, ou a valores de pH mais ácidos ou mais básicos que a faixa de pH tolerada pela proteína, as forças intermoleculares são rompidas, e a proteína perde esta estrutura helocoidal (forma de hélice) e “estica”. Dizemos que ela DESNATURA, e quando ela desnatura, ela perde todas as suas propriedades, todas as duas funções. E isso acontece com toda proteína que, por meio da ingestão, cai no estômago , que tem pH entre 1,0 e 2,0. E pra que serve, então, uma proteína desnaturada no nosso estômago? Existem enzimas (enzimas também são proteínas, mas as que têm funções específicas no nosso estômago possuem tolerância em faixas de pH e temperatura diferenciadas) no nosso estômago que hidrolisam (“desfazem”) as ligações peptídicas – que são as ligações que mantém os aminoácidos ligados um ao outro para formar a estrutura primária da proteína, e ao final, temos apenas os aminoácidos que formavam a proteína, isolados uns dos outros. Estes aminoácidos atravessam as membranas do estômago e caem na corrente sanguínea, que os levam até as nossas células. Na célula, todo o processo de transcrição e tradução do DNA, envolvendo o RNA mensageiro, que “copia a receita” das proteínas no DNA, e o RNA transportador, que traduz a “receita” da proteína e transporta os aminoácidos, forma uma nova proteína.

Então, se o colágeno é uma proteína, será que ela pode ser reposta no nosso organismo por meio da ingestão de cápsulas? Não, quando o colágeno passa pelo estômago, ele é quebrado, e ao final, o que vai para as nossas células são seus aminoácidos – lisina, prolina e glicina. Será que, tendo estes três aminoácidos no interior da célula, o colágeno é novamente formado a partir de seus aminoácidos iniciais, que foram ingeridos na forma de cápsulas? Em pequena parte, pode ser que sim, mas é muito provável que não. O organismo vai usar estes aminoácidos – que provém de todas as proteínas que ingerimos, não só do colágeno – para produzir as proteínas que acha necessário – e o que o nosso organismo acha que é necessário é bem diferente do que a nossa vaidade acha necessário. Assim, se o seu organismo achar que é necessário produzir uma proteína reguladora, ele vai pegar os aminoácidos vindos do colágeno, juntar com outros tipos de aminoácidos, e fomar uma proteína reguladora. Se achar que é necessário produzir uma proteína de defesa, como os anticorpos, ele vai usar estes aminoácidos para produzir anticorpos. E em geral, a vaidade não é encarada pelo nosso organismo como uma necessidade, ele pensa muito mais em sobrevivência (infelizmente, ou felizmente, depende do ponto de vista). Então, a conclusão é: INGERIR CÁPSULAS DE COLÁGENO NÃO FUNCIONAM COMO REPOSIÇÃO DE COLÁGENO NO ORGANISMO. Nos resta aprender a envelhecer com bom-humor…

Pelo mesmo motivo porquê o consumo de cápsulas de colágeno não funciona, as dietas milagrosas e receitas médicas da vovó não dão certo quando se trata de consumir determinado alimento porque ele contem uma determinada enzima, que tem atividade antiinflamatória, como emagrecedora, como reguladora etc. Não quer dizer que a enzima não tenha esta atividade. Mas se ela for consumida por meio da alimentação, não adiantará de nada, porque ela será quebrada em aminoácidos, e estes aminoácidos serão usados para produção de novas proteínas, que provavelmente não serão mais aquela enzima que tinha uma atividade desejada.

É por isso também que a insulina – uma proteína que promove o ingresso de glicose nas células, e que é produzida em quantidades insuficientes em algumas pessoas, que chamamos de DIABÉTICOS – não pode ser administrada na forma de comprimidos, nem em gotas, nem nenhuma forma que precise passar pelo estômago. Sendo injetada, ela entra no organismo na sua forma ativa, e pode exercer suas funções.

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